Uma
obviedade esquecida.
Não
falo aqui de sermos um como humanidade, ou com a totalidade da vida
na Terra, ou no Universo. Isso vai aparecer em outro post.
Digo
que cada um de nós
é um – não dois ou três ou... Você não é um corpo e uma
mente e emoção e razão separados e/ou antagônicos. Você é um
organismo, tudo funciona junto.
Penso, logo existo.
Na noite
de 10 para 11 de novembro de 1619, um jovem soldado francês de 23
anos, René Descartes, servindo sob o comando de Maurício de Nassau
(lembra dele?), teve três sonhos que interpretou como indicativos de
sua missão de vida: unir os conhecimentos humanos num todo
científico de certezas racionais.
O
tempo era a Renascença, quando a redescoberta do conhecimento
greco-romano, e a expansão da fronteira geográfica e das
manufaturas, trazem o fim da Idade Média: da
unidade religiosa, e da ciência e filosofia aristotélicas,
construções verbais. Procura-se um método:
um caminho (ódos)
que leve à meta – a descoberta da verdade.
Na
Inglaterra surge a proposta empirista: uma ciência
baseada na observação e experimentação, formulando por indução
suas leis, do particular para o geral (Francis Bacon). Na
França a razão – encarnada na matemática – é proposta por
Descartes como fonte para a certeza científica, construída
por dedução.
Mas
– duvida ele – o que garante que essa representação interna
tenha uma correspondência “lá fora”, no mundo objetivo?
“Se
duvido, penso”. “Penso, logo existo.” Existo como coisa
pensante,
objetiva. E Descartes pensa: “o que mais existe, além de mim?” E
empresta o argumento de que se existe em mim a idéia de Deus, é
porque existe um Deus – mais exatamente, a Deusa-Razão. E
pensa ainda: “se Deus existe, ele é bom e verdadeiro, portanto não
pode permitir que o espírito humano erre sistematicamente. Logo, as
ideias sobre a realidade correspondem à realidade.” Então
é real que tenho um corpo, diferente do meu pensamento, ou alma, ou
espírito. O que liga os dois é um conjunto de “espíritos
animais”.
Onde
entra a biologia...?
Em “O erro de Descartes”
António Damásio mostra que os sentimentos e as percepções
corporais são as bases para o ser humano usar a razão e o
conhecimento, até mesmo para construí-los.
Na conclusão da primeira
parte do livro Damásio resume que há “uma ligação íntima entre
um conjunto de regiões cerebrais e os processos de raciocínio e de
tomada de decisão”. Estes sistemas estão envolvidos:
- na planificação e decisão – na razão em sentido lato;
- parte deles está ligada ao planejamento e decisões “pessoais e sociais”, habitualmente chamados de racionalidade;
- os mesmos sistemas têm um papel importante no processamento das emoções;
- também são necessários para a memória – reter na mente a imagem de um objeto relevante que não está mais presente.
As
percepções corporais também estão ligadas à tomada de decisão.
Quando as partes do cérebro que processam estas percepções são
lesadas, a pessoa perde tanto o contato com o corpo como com as
emoções, e se torna incapaz de tomar decisões pessoais e sociais.
No
entanto, em muitos casos de lesões em certas regiões do cérebro, o
raciocínio matemático e o pensamento abstrato podem estar intatos,
como comprovam testes psicológicos, mas ao tomar as decisões mais
simples sobre sua vida – como escolher um critério para
classificar documentos – a pessoa se revela incapaz, justificando
até uma aposentadoria por invalidez. Ela
pensa, mas não age. Pensa, mas não se relaciona. Ainda que tenha um
sistema de valores racional e ético, não consegue ser
de
acordo com ele.
Essa
pessoa, em sua tragédia, sublinha o que as outras mais afortunadas
que não tiveram o mesmo destino, são: indivíduos, em quem razão,
emoção, sentimento, memória, percepção corporal interna,
vontade, estão unidos.
Fontes:
Os
pensadores, Editora Abril: encarte do volume sobre Descartes
António
Damásio, O
erro de Descartes