sábado, 28 de junho de 2014

Somos todos um


Uma obviedade esquecida.
Não falo aqui de sermos um como humanidade, ou com a totalidade da vida na Terra, ou no Universo. Isso vai aparecer em outro post.
Digo que cada um de nós é um – não dois ou três ou... Você não é um corpo e uma mente e emoção e razão separados e/ou antagônicos. Você é um organismo, tudo funciona junto.

Penso, logo existo.

Na noite de 10 para 11 de novembro de 1619, um jovem soldado francês de 23 anos, René Descartes, servindo sob o comando de Maurício de Nassau (lembra dele?), teve três sonhos que interpretou como indicativos de sua missão de vida: unir os conhecimentos humanos num todo científico de certezas racionais.
O tempo era a Renascença, quando a redescoberta do conhecimento greco-romano, e a expansão da fronteira geográfica e das manufaturas, trazem o fim da Idade Média: da unidade religiosa, e da ciência e filosofia aristotélicas, construções verbais. Procura-se um método: um caminho (ódos) que leve à meta – a descoberta da verdade.
Na Inglaterra surge a proposta empirista: uma ciência baseada na observação e experimentação, formulando por indução suas leis, do particular para o geral (Francis Bacon). Na França a razão – encarnada na matemática – é proposta por Descartes como fonte para a certeza científica, construída por dedução. Mas – duvida ele – o que garante que essa representação interna tenha uma correspondência “lá fora”, no mundo objetivo?
Se duvido, penso”. “Penso, logo existo.” Existo como coisa pensante, objetiva. E Descartes pensa: “o que mais existe, além de mim?” E empresta o argumento de que se existe em mim a idéia de Deus, é porque existe um Deus – mais exatamente, a Deusa-Razão. E pensa ainda: “se Deus existe, ele é bom e verdadeiro, portanto não pode permitir que o espírito humano erre sistematicamente. Logo, as ideias sobre a realidade correspondem à realidade.” Então é real que tenho um corpo, diferente do meu pensamento, ou alma, ou espírito. O que liga os dois é um conjunto de “espíritos animais”.

Onde entra a biologia...?

  Em “O erro de Descartes” António Damásio mostra que os sentimentos e as percepções corporais são as bases para o ser humano usar a razão e o conhecimento, até mesmo para construí-los.
Na conclusão da primeira parte do livro Damásio resume que há “uma ligação íntima entre um conjunto de regiões cerebrais e os processos de raciocínio e de tomada de decisão”. Estes sistemas estão envolvidos:
      1. na planificação e decisão – na razão em sentido lato;
      2. parte deles está ligada ao planejamento e decisões “pessoais e sociais”, habitualmente chamados de racionalidade;
      3. os mesmos sistemas têm um papel importante no processamento das emoções;
      4. também são necessários para a memória – reter na mente a imagem de um objeto relevante que não está mais presente.
As percepções corporais também estão ligadas à tomada de decisão. Quando as partes do cérebro que processam estas percepções são lesadas, a pessoa perde tanto o contato com o corpo como com as emoções, e se torna incapaz de tomar decisões pessoais e sociais.
No entanto, em muitos casos de lesões em certas regiões do cérebro, o raciocínio matemático e o pensamento abstrato podem estar intatos, como comprovam testes psicológicos, mas ao tomar as decisões mais simples sobre sua vida – como escolher um critério para classificar documentos – a pessoa se revela incapaz, justificando até uma aposentadoria por invalidez. Ela pensa, mas não age. Pensa, mas não se relaciona. Ainda que tenha um sistema de valores racional e ético, não consegue ser de acordo com ele.
Essa pessoa, em sua tragédia, sublinha o que as outras mais afortunadas que não tiveram o mesmo destino, são: indivíduos, em quem razão, emoção, sentimento, memória, percepção corporal interna, vontade, estão unidos.
Fontes:
Os pensadores, Editora Abril: encarte do volume sobre Descartes
António Damásio, O erro de Descartes